A aprovação da chamada “Lei de Inocência Fiscal” pelo governo de Javier Milei marca um ponto de inflexão perigoso na política econômica e institucional da Argentina. Vendida como uma reforma para “libertar” o contribuinte e reduzir a burocracia estatal, a medida enfraquece mecanismos centrais de controle financeiro e acende um alerta grave: o país pode estar abrindo caminho para a legalização de dinheiro proveniente do narcotráfico e de outras atividades criminosas.
Ao flexibilizar exigências sobre a comprovação da origem dos recursos e reduzir o poder de fiscalização do Estado, a nova legislação inverte a lógica básica do combate a crimes financeiros. Na prática, o dinheiro passa a ser presumido como lícito, mesmo quando não há garantias suficientes sobre sua procedência. Especialistas apontam que esse tipo de brecha é historicamente explorado por organizações criminosas, que dependem justamente de sistemas frágeis para lavar grandes volumes de capital.
O discurso oficial insiste em tratar a fiscalização como “perseguição estatal”, mas ignora um ponto central: sem controle, não há combate efetivo à evasão fiscal, à corrupção nem ao crime organizado. Em um país que já enfrenta sérias dificuldades para conter o avanço do narcotráfico e do dinheiro ilegal, a escolha do governo Milei soa menos como modernização e mais como negligência institucional.
Outro efeito imediato é o dano à credibilidade internacional da Argentina. Ao afrouxar regras de rastreamento financeiro, o país corre o risco de ser visto como um ambiente permissivo à lavagem de dinheiro, o que pode gerar sanções indiretas, desconfiança de investidores e pressões de organismos internacionais. O custo dessa decisão tende a recair, mais uma vez, sobre a população.
Enquanto o cidadão comum continua arcando com impostos, inflação e cortes em políticas públicas, a lei beneficia justamente aqueles que operam nas sombras do sistema econômico. A ausência de perguntas sobre a origem do dinheiro não é liberdade — é cumplicidade.
Ao transformar o controle fiscal em inimigo ideológico, o governo Milei coloca o Estado argentino em uma posição vulnerável, onde o discurso liberal serve de cortina para a entrada de recursos ilícitos no sistema formal.
O resultado pode ser devastador: mais impunidade, mais desigualdade e mais poder para o crime organizado.







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