Trump, o filho de Obama.

O título é muito provocativo, eu sei! Mas, ele transmite a verdade mais inconveniente da política norte-americana, que é negada tanto por republicanos quanto por democratas: Trump só teve sucesso politicamente, graças a Barack Obama.

O ano era 2008, e havia uma forte expectativa em torno do nome de Barack Obama, que seria o primeiro presidente negro da história dos EUA. Obama foi eleito, não pelo fato de ser um homem negro, ou por ser um candidato democrata, o “buraco” era mais embaixo: Obama foi eleito porque sua campanha o tornou absurdamente popular.

O mundo todo vibrava com a campanha de Barack Obama. Ele havia conseguido algo que não se via desde a época de Ronald Reagan: um candidato carismático, popular e que engajava toda uma nação. A saber, embora Obama não fosse republicano, ele tinha certa admiração por Reagan, justamente por conta disso (https://www.npr.org/2009/01/31/100077084/obama-and-reagan-different-ideals-similar-tone#:~:text=Barack%20Obama%20and%20Ronald%20Reagan%20are%20very,address%20has%20echoes%20of%20Reagan’s%20first%20inaugural.), o que comprova que nossa tese não foi tirada de “vozes da cabeça”, mas é um fato real, afirmado pelo próprio Barack Obama.

As eleições de 2008 eram um cenário perfeito para a eleição de Obama: seu oponente, John McCain, era um clássico republicano, muito austero em seu discurso, não empolgava e tampouco era popular. Apesar dos pesares, conseguiu ter maioria nos estados que eram tradicionalmente republicanos.

A derrota de McCain e, posteriormente, de Mitt Romney (2012) deixa um recado muito claro aos Republicanos: a única forma de se manterem vivos na política é investindo em popularidade. O eleitor americano não queria mais candidatos “sem graça”, era preciso investir agressivamente em um perfil agressivo, popular e ousado, eis então que surge Donald Trump.

A vitória de Trump em 2006 foi um estouro: mesmo que tenha perdido no número nominal de votos, o sistema eleitoral norte-americano é diferente do nosso, o que garantiu-lhe a vitória. A vitória de Trump, mostrou para os republicanos que a estratégia havia dado certo, pois conseguiram recuperar alguns territórios que haviam perdido anteriormente, o que faz muito sentido, no modelo eleitoral dos EUA, que vence quem detém mais territórios e não o maior número de votantes, e nisso os republicanos sempre tiveram relativa vantagem, por agradar mais o eleitorado do interior do país.

Porém, este perfil agressivo e ousado de Trump, acabou por ser mal visto durante a pandemia, o que resultou na vitória de Joe Biden (2020), que era um político mais austero, mais alinhado ao perfil da “Velha América”, mas que não se sustentou por muito tempo, haja vista que Trump sai vitorioso novamente em 2024, e desta vez, de maneira absoluta: vencendo no número de votos nominais e no número de delegados.

Em 2024, qual foi o “erro democrata”? Kamala Harris não era nada popular; embora representasse minorias relevantes, seu perfil não cativava e seu atrelamento à imagem de Joe Biden (ela era sua vice) acabou por prejudicar ainda mais a sua imagem. Para enfrentar Trump, era preciso um democrata que pudesse ser tão popular e agressivo como ele, alguém como o próprio Obama ou Clinton, mas sem ser o Obama ou o Clinton, afinal, o tempo deles já se foi.

Em suma, não haveria Trump sem Obama: os republicanos só abriram mão do seu perfil tradicional austero porque era necessário para retornar ao poder. Obama mudou a política norte-americana, mas não deixou um sucessor; porém, a “receita do bolo” ficou pronta para quem quiser segui-la.

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