O Brasil nunca será a Venezuela: entenda o porquê.

Durante muito tempo, um bordão sempre foi utilizado para causar temor nos brasileiros: O Brasil vai virar a Venezuela. Honestamente, esta hipótese é tão remota que se torna impossível de acontecer na prática, por uma infinidade de motivos.

Ao contrário do Brasil, a Venezuela possuía, ao longo do século XX, uma economia fortemente baseada na produção petrolífera: era literalmente o petróleo que movia o país, garantia a construção de novas infraestruturas, gerava empregos e movimentava a economia. Fora o petróleo, a indústria venezuelana era pouco significante, diferente do Brasil, que ao longo do século XX, possuía um dos maiores parques industriais da América do Sul e uma economia relativamente diversificada.

No século XXI, pouco mudou na Venezuela; a dependência do petróleo se manteve, e isto foi o ponto crucial para chegarmos ao caos que conhecemos hoje. A irresponsabilidade dos governantes venezuelanos, ao longo do século XX e do começo do século XXI, teve um custo elevadíssimo para o povo venezuelano.

Se nos momentos áureos do petróleo, os recursos tivessem sido convertidos em fomento para a indústria local, a dependência econômica, quase que exclusiva, com relação ao petróleo, teria se reduzido e o país teria ficado menos vulnerável às intempéries econômicas. O raciocínio era algo bastante simples: quando houve a criação da PDVSA, no ano de 1976, e o monopólio da extração passou a ser da referida estatal, o governo venezuelano podia ter se utilizado dos lucros desta, para fomentar outros setores da economia, aumentando a diversificação. Não teria erro, talvez isto reduziria o crescimento econômico, em um primeiro momento, mas a longo prazo, tornaria a economia da Venezuela muito mais sustentável.

Esta estratégia, por sua vez, não tinha nada de inovadora para a época: o Brasil já havia feito isso há mais de trinta anos atrás, durante o governo de Getúlio Vargas, que preocupado com a forte dependência econômica que o Brasil possuía com relação ao setor agrário, fomentou o desenvolvimento da indústria nacional e fez os primeiros esforços para a produção petrolífera nacional. Graças a esta visão de Getúlio Vargas, o Brasil se tornou uma economia mais diversificada e menos sujeita a intempéries econômicas, como ocorre há um certo tempo com a Venezuela.

O grande erro do chavismo foi que este resolveu atender às demandas sociais primeiro, em vez de ter tratado de assuntos de natureza econômica, o que tornou a economia venezuelana insustentável. Quando se trata de uma estratégia governamental, que visa o bem-estar social, antes de investir em programas sociais, o país deve preocupar-se com a solidez de sua economia, sob o risco do modelo não se sustentar.

Ainda que me chamem de reacionário, por conta desta visão, não devemos nos esquecer que o próprio Karl Marx havia dito que o socialismo deveria emergir de um país com o capitalismo em estágio avançado, ou seja, um país que já tivesse a solidez econômica suficiente para suportar as intervenções do Estado na economia, para garantir todos os programas e iniciativas sociais necessárias para conduzir aquele país ao socialismo.

Este era o raciocínio, por exemplo, de Olof Palme na Suécia: quando o Partido Operário Social-Democrata conseguiu ascender ao governo sueco, eles já haviam encontrado um país de primeiro mundo, com economia desenvolvida, e o desafio era apenas reduzir as desigualdades internas e promover a justiça social. Os resultados desta iniciativa foram os melhores possíveis, fazendo com que a Suécia, até os dias atuais, seja referência global em diversos assuntos de natureza social.

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