Sim, o PL governa o Brasil desde 2003!

Não, você não leu errado, é o que está escrito mesmo: o PL governa o Brasil desde 2003. Antes que alguém diga que eu estou equivocado, eu imediatamente respondo que o PL não é Bolsonaro, ele é maior que Bolsonaro, vocês que ainda não estão prontos para esta conversa.

O Partido Liberal (PL) foi fundado em 1985, por um nome que já foi esquecido na política pública brasileira: Álvaro Valle, político carioca que chegou a ser Deputado Federal durante a constituinte.

Ideologicamente, o PL concebido por Álvaro Valle nada tinha haver com o atual PL: era um partido que defendia o liberalismo social (https://www18.fgv.br/Cpdoc/Acervo/dicionarios/verbete-tematico/partido-liberal-pl), ideologia esta que defende direitos das minorias, como o casamento homoafetivo, direitos reprodutivos e etc. O próprio Deputado Álvaro Valle defendia a doação obrigatória de órgãos (https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/126506/1988_20%20a%2025%20de%20Fevereiro%20-%200067.pdf?sequence=1&isAllowed=y), algo que certamente afrontaria algumas minorias religiosas mais conservadoras, como as Testemunhas de Jeová, por exemplo.

Este enviesamento do PL para a centro-esquerda, na época de sua concepção chega ao fim, com a morte de Álvaro Valle e o surgimento de Valdemar Costa Neto como a nova liderança do partido. Waldemar muda a orientação ideológica do partido político para o liberalismo econômico e o conservadorismo social, mas não trouxe o partido imediatamente para a direita: o PL começa, a partir dos anos 2000, a ser um partido do “centrão político”.

Esta mudança de posicionamento político do PL, que passa desapercebida no cenário político nacional, pois não houve mudança da identidade visual ou nome da referida agremiação partidária, faz com que o PL pareça, no cenário político, como sendo ainda um partido da “centro-esquerda”, quando já havia abandonado esta orientação política.

E foi exatamente esta jogada política, que fez com que o PL tivesse a confiança do PT, para as eleições de 2003: embora, agora, fossem distantes ideologicamente, o PL e o PT eram oposição ao governo FHC, o que viabilizaria uma aliança entre os partidos para as eleições de 2002, que se mostrou bem sucedida, resultando na nomeação de José Alencar para compor a chapa presidencial, como candidato a vice-presidência.

Com a eleição de Lula em 2002, o PL não apenas conseguiu alcançar o governo federal, como realizar uma significativa expansão do partido nos próximos anos: nas eleições municipais de 2004, o partido conseguiu aumentar sua presença em 32%, passando a controlar 382 municípios, além de ter conseguido incorporar, no ano anterior, dois partidos para a legenda: o Partido Geral dos Trabalhadores e o Partido Social Trabalhista.

O PL mostra-se um fiel aliado do PT, mesmo nos piores momentos, com o nome de Waldemar da Costa Neto envolvido no escândalo do mensalão, no ano de 2005. Apesar dos pesares, o PL segue na base governista, apoiando a reeleição de Lula. No ano de 2006, diante do sucesso que o PRONA teve no pleito eleitoral daquele ano e o risco de ambas as agremiações partidárias de terem recursos cortados pela cláusula de barreira, o PL funde-se ao PRONA, fundando o Partido da República (PR), que se tornaria extremamente relevante no “centrão”, mantendo Valdemar Costa Neto como seu mandatário.

O PR de Valdemar era a sua personificação em forma de partido político: tudo aquilo que Valdemar acreditava como sendo o “jeito certo” de se fazer política, estava agora no estatuto partidário do PR. Ideologicamente, qualquer resquício do PRONA foi silenciado, principalmente após a morte de Enéas Carneiro (2007), que morreu durante seu segundo mandato como Deputado Federal, tendo tido uma atuação legislativa relativamente tímida.

Mas, esta fusão com o PRONA, o sábio Valdemar enxergava algo que ninguém ainda tinha percebido na política brasileira até então: é preciso apoiar pessoas polêmicas, para conseguir fazer com que o partido consiga muitos votos e, com isso, conseguir manter os “cérebros” do partido, que não eram tão populares entre o eleitorado, nas legislaturas vindouras. Nesta linha de raciocínio, Valdemar e o PR entendiam que no Brasil, política não se faz com ideologia, se faz com palanque e populismo extremo. Além de Enéas, o PR já havia trazido outros nomes polêmicos para o partido, como o estilista e apresentador Clodovil Hernandez, que em 2007 decidiu-se filiar ao PR, sendo que havia sido eleito Deputado Federal nas eleições de 2006 pelo PTC. A sua ida para PR, com certeza era uma aposta do partido para as eleições seguintes, que não foram disputadas por Clodovil Hernandez, pois este faleceria em 2009 (um ano antes).

Seguindo esta “receita de bolo”, o PR lança Tiririca como Deputado Federal, nas eleições de 2010: foi sucesso absoluto (mais de 1,3 milhões de votos). A eleição de Tiririca, garantia ao partido de Valdemar, vários assentos na Câmara dos Deputados e a sustentabilidade do partido, como integrante do “centrão”, para barganhar com o governo.

Com a chegada de Dilma Rousseff ao poder, o PR consegue novamente sua presença no governo, com alguns ministérios e mesmo com o impeachment em 2016, o PL segue como base aliada do governo de Michel Temer e nas eleições de 2018 opta por manter neutralidade, não apoiando nem Bolsonaro nem Haddad: estratégia que se mostrou incrivelmente inteligente, anos seguintes.

Bolsonaro foi um fenômeno eleitoral em 2018, mas ainda assim era despreparado para todas as armadilhas típicas da política brasileira, porém Valdemar viu potencial: apesar de todo ataque midiático e péssimo relacionamento com os governadores, o Bolsonaro mantinha relevante apoio popular, o que foi visto por Valdemar como uma oportunidade única de fortalecer seu partido.

Após o fracasso de Bolsonaro em criar seu próprio partido político e problemas internos no PSL, Valdemar enxergou a tempestade perfeita para convidar Bolsonaro para filiar-se ao seu partido em 2021. Com a vinda de Bolsonaro, o partido volta a se chamar PL e agora se afirma como sendo parte da “direita” brasileira, revisando seu estatuto, colocando o conservadorismo como sua principal ideologia: em outras palavras, o partido agora era liberal só no nome.

A vinda de Jair Bolsonaro em 2021, faz com que o partido alcance quase um milhão de filiados: agora o PL não precisava mais ser figurante no cenário político nacional, havia se tornado protagonista e, o melhor de tudo, Valdemar continuava controlando tudo, como sempre tem feito desde 2000.

Agora, o “Capitão do Povo” não era capitão de nada: quem controla o PL é o “bom e velho” Valdemar, com suas estranhas, porém eficazes articulações. Bolsonaro tornou-se apenas uma isca para que Valdemar alcançasse aquilo que tanto buscava: transformar um partido nanico e ideológico, a beira da extinção, em um gigante na política brasileira. O crescimento do PL não ocorreu por simpatia ideológica, ocorreu por puro fisiologismo e maniqueísmo.

E se o clã Bolsonaro acabar? O PL acaba? Lógico que não, exceto se Valdemar não estiver vivo. O PL é e sempre foi o Valdemar, nunca Bolsonaro. Se o clã sair de cena, com certeza Valdemar buscará um novo mecanismo político para manter-se no poder, ainda que nos bastidores, como sempre esteve, aonde tem uma força incrível, desconhecida da grande massa e longe de ataques públicos constantes a sua imagem, como sempre ocorre com os protagonistas.

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