Não, este não é um artigo para elogiar, nem tampouco criticar a influência dos pastores evangélicos na política brasileira, mas sim um texto de reflexão sobre o que tem ocorrido na política brasileira desde os primeiros anos dos anos 2000 até os dias atuais, quando se tem percebido um exponencial crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional.
Em 2006, o Congresso Nacional contava com um pouco menos de cinquenta parlamentares ligados à “bancada evangélica”: nos dias atuais, este número excede a mais de cem parlamentares, quase todos ligados às mesmas agremiações político-partidárias: PL, Republicanos e União Brasil.
O crescimento da “bancada evangélica” ocorre por um motivo bastante óbvio: houve um crescimento da população evangélica no Brasil: em um espaço de apenas 20 anos, o número de evangélicos no país saltou de menos de um quinto para mais de um quarto da população nacional. Este aumento de indivíduos evangélicos, não teve impacto apenas na parte da espiritualidade do povo brasileiro, mas um impacto extremamente relevante no cenário político nacional.
Ao analisarmos as dez maiores denominações evangélicas do Brasil, apenas uma não é vinculada ao movimento pentecostal ou neopentecostal: a Igreja Presbiteriana do Brasil, que conta atualmente com pouco mais de setecentos mil membros. A maior organização religiosa evangélica do Brasil, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, conta com mais de seis milhões de membros.
A forte presença de igrejas evangélicas vinculadas ao movimento pentecostal e neopentecostal denuncia uma cultura protestante que é muito diversa daquela que edificou países como a Alemanha, EUA, Reino Unido, dentre outros. As denominações que crescem no Brasil, possuem uma visão muito mais conservadora das relações sociais, um forte apelo ao emocional, além da defesa da “teologia da prosperidade”, por significativa parcela destas igrejas, como o caso da Igreja Universal do Reino de Deus, controlada pelo Bispo Edir Macedo.
Teologicamente distantes das igrejas protestantes tradicionais, a postura que estas igrejas acabam por tornar na sociedade, costuma ser muito mais estreita com as instituições governamentais do que deveria ser, a ponto que alguns estudiosos sobre o tema chegam a falar em “teologia do domínio” (https://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/article/view/46944), o que acende um alerta, de longo prazo, com relação a solidez das instituições democráticas e a manutenção da laicidade estatal.
A recente postura do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com relação à atuação das igrejas evangélicas nos pleitos eleitorais (https://www.migalhas.com.br/depeso/456628/o-que-o-tse-decidiu-sobre-o-uso-de-igrejas-nas-eleicoes), já denuncia o crescimento do terreno da “teologia do domínio” no Brasil, demonstrando que os pastores estão exercendo um papel efetivo de controle sobre sua comunidade, conseguindo moldar os rumos da sociedade de acordo com a sua própria visão.
Por tal motivo, estamos vendo recentemente tanta propositura legislativa de viés moralista, como se estes fossem os problemas reais que atrasam o desenvolvimento nacional. Na prática, estes projetos servem como cortina de fumaça para ocultar situações de extrema gravidade, que ocorrem no cenário político nacional, como por exemplo o envolvimento destes pastores com o crime organizado (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/02/pcc-usava-igreja-para-crime-diz-pf-pastor-e-mais-9-sao-presos.shtml) ou em escândalos de corrupção de proporções nacionais (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/15/damares-divulga-lista-de-igrejas-e-pastores-citados-na-cpi-do-inss-apos-polemica-com-malafaia-entenda.ghtml).
No fundo, não queremos criticar os bons pastores evangélicos, nem tampouco qualquer religião ou religioso, mas não podemos nos manter silentes diante deste cenário, em que igrejas estão sendo utilizadas para todos os propósitos possíveis, exceto para o seu verdadeiro propósito: evangelizar.







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