Falamos muito dos EUA: mas o Brasil também quer ser uma polícia global

Não é de hoje que observamos o comportamento dos brasileiros na internet e do governo brasileiro, no exterior, se intrometendo em questões particularmente interna de outros povos, só porque “não se concorda” como o outro povo vive ou pensa.

O Brasil, há certo tempo, está querendo ser a polícia moral do mundo, querendo ditar o que é o certo e o que é errado. Estes dias, por exemplo, deparei-me com um post na internet sobre a campeã de um reality show italiano, no qual brasileiros estavam indignados com o fato de a Itália não recriminar a imagem de Mussolini com o mesmo rigor que a Alemanha faz com a de Hitler (deixo claro, que não estou defendendo o nazifascismo, mas o brasileiro ama “meter o bedelho” na cultura alheia).

É interessante que o brasileiro quer ditar regras para o mundo todo seguir, mas quando algum estrangeiro “mete o bedelho” no modo de viver do brasileiro, este indivíduo será alvo das mais duras críticas sociais possíveis, de maneira, quase sempre, bastante agressiva.

Falamos mal dos portugueses que dizem aos brasileiros “volta para a sua terra” em Portugal, mas experimenta um estrangeiro falar mal do Brasil, ainda que nem esteja no Brasil, e verás reação igual ou pior a essa, muito facilmente.

Nos habituamos a chamar os europeus de xenófobos, mas muitas vezes nos esquecemos do tratamento dispensado aos imigrantes provenientes da América Latina, especialmente bolivianos, cubanos, haitianos e venezuelanos (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-05/haitianos-e-venezuelanos-denunciam-xenofobia-em-abrigos-do-rs).

Além disso, não temos muita moral para apontar o dedo contra o nazifascimo, quando o Brasil se apresenta como um dos países com maior taxa de intolerância religiosa do mundo ocidental (https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/intolerancia-religiosa-no-brasil-cresceu-mais-de-80-diz-estudo/), com muitos casos de violência contra o povo cigano (https://www.brasildefato.com.br/colunista/avesso-do-direito/2021/10/07/ciganos-no-brasil-uma-historia-de-multiplas-discriminacoes-invisibilidade-e-odio/) e contra a comunidade LGBTQIA+ (https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-01/brasil-ainda-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-no-mundo). Sim, nossos números deixariam os “fãs do pintor austríaco” bastante orgulhosos e tudo isso só reforça a nossa hipocrisia.

Não, brasileiro não é e nunca vai ser mocinho da história global. Não possuímos qualquer moral para ficar dando “lição de moral” em outros povos. Queremos ser a polícia do mundo, sendo que não olhamos sequer para nossos problemas internos. Minhas duras críticas são para reflexão: se quer exigir, tem que primeiro dar o exemplo (e isso, infelizmente, quase nunca tem ocorrido).

Deixe um comentário

Fanfulla – Períodico

Fanfulla: compromisso com a verdade

No Fanfulla, acreditamos que a informação de qualidade começa pela honestidade com o leitor. Em tempos de ruído e desinformação, nosso compromisso é com a verdade — ainda que ela seja incômoda, difícil ou contrariada por interesses diversos.

Buscamos fatos. Apuramos com rigor. Questionamos versões prontas. E entregamos ao nosso público uma leitura crítica, independente e fundamentada.

Nosso papel não é agradar, mas informar com responsabilidade. A cada edição, reafirmamos: a verdade é o único caminho possível para quem leva o jornalismo a sério.

Siga nossas redes sociais